
Psicólogos constatam que desinformação, excesso de zelo e superproteção contribuem para isolamento e reprodução de estigmas
Reprimir manifestações de sexualidade da pessoa com deficiência é negar-lhe o direito de construir uma vida social e afetiva. Apesar dessa constatação, fruto dos avanços obtidos nos estudos, psicólogos da Unesp afirmam que, por desinformação, excesso de zelo e superproteção, pais e educadores costumam manter o deficiente sob constante vigília, contribuindo para uma tendência ao isolamento e à reprodução de estigmas.
“O que se defende na socialização da pessoa com deficiência é o seu direito a ter amigos, namorar e relacionar-se, independentemente dessa pessoa efetivar ou não a prática sexual”, diz Ana Cláudia Bortolozzi Maia, docente do Departamento de Psicologia e líder do Grupo de Pesquisa Sexualidade, Educação e Cultura da Faculdade de Ciências, câmpus de Bauru.
Para ela, seria importante reconhecer a individualidade de cada pessoa com seus limites e potencialidades para a expressão da sexualidade. “Tratar de uma mesma maneira todas as formas e graus de deficiências como se fossem uma só é uma das formas de limitar que o deficiente se desenvolva”, destaca.
O psicólogo Hugues Costa de França Ribeiro, que coordena o Grupo de Pesquisa Estudos sobre Sexualidade da Faculdade de Filosofia e Ciências (FFC), câmpus de Marília, enfatiza que os pais tendem a pensar a pessoa com deficiência como um ser assexuado. “Eles não ouvem o que ela deseja e precisa, e esta representação legitima a não oferta de educação sexual”, assinala.
Como conseqüência desta negação, no livro Sexualidade e Deficiências (veja quadro), resultado de sua tese de doutoramento, Ana Cláudia descreve que grande parte das pessoas com limitações passa a apresentar problemas de carência afetiva, dependência emocional e dificuldade para se tornar adulta.
Desinformação – Ana Cláudia e Hugues afirmam que a desinformação é o principal obstáculo para a socialização plena da pessoa com deficiência. Segundo os docentes, em geral, as famílias entendem suas manifestações de sexualidade como uma anormalidade e não como algo próprio dos humanos. “Essas famílias necessitam de suporte intelectual e emocional para lidar com o crescimento dos filhos. Isso as ajudaria a não incorporar o estigma social contra o diferente”, lembra Hugues.
Os estigmas enraizados no pensamento coletivo, de acordo com os pesquisadores, conduzem ao entendimento de que o deficiente intelectual manifesta sexualidade exagerada. “É fato que ele pode não ter a percepção das regras sociais, mas se for instruído saberá se comportar de forma adequada”, diz Ana Cláudia.
Por sua vez, Hugues lembra que a maioria dos deficientes intelectuais é portadora de uma desordem leve, e por isso é capaz de se beneficiar com a educação que envolva conteúdos da sexualidade.
Os portadores de deficiências físicas, auditivas e visuais entendem o cerceamento a que são submetidos cotidianamente como um sinal de que são incapazes de construir relacionamentos e isso repercute no próprio comportamento. “Essas pessoas quando chegam à escola já chegam com os preconceitos incorporados”, fala o docente de Marília.
Namoro ou amizade – Hugues realizou uma pesquisa junto a 40 adultos portadores de deficiência, com idades entre 18 e 35 anos, provenientes de classes sociais variadas, com o objetivo de analisar suas vivências afetivo-sexuais. Observou que as principais queixas dos entrevistados diziam respeito aos obstáculos impostos pelos familiares para impedir encontros amorosos.
Segundo o docente, essa atitude dos pais baseia-se na crença de que o deficiente não consegue se proteger e é incapaz de assumir responsabilidades. Os entrevistados, apesar de afirmarem sentir falta de um vínculo afetivo, reproduziam a fala de seus responsáveis: “Não pode. É muito perigoso”. Os relatos apontam que os membros desse grupo sentem as mesmas necessidades das demais pessoas, mas em razão dos estigmas acabam isolados. A socialização, para Hugues, representaria a possibilidade de um melhor ajustamento pessoal, social e sexual.
Ana Cláudia lembra que cabe aos educadores, psicólogos e demais profissionais o papel de pesquisar e esclarecer a comunidade sobre o assunto. “Toda a sociedade deve ajudar a pessoa com deficiência a viver a sua sexualidade, oferecendo-lhe orientações e condições adequadas para o desenvolvimento de suas potencialidades”, conclui.
Importância da educação sexual
Preconceito, desinformação, escassez de estudos sobre o assunto e diferenças de valores são alguns dos temas que cercam a sexualidade dos deficientes. Neste livro, a psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi Maia não só discute os tabus que cercam o assunto como faz uma revisão bibliográfica na área.
Responsável pela disciplina Desenvolvimento e Educação Sexual no curso de Formação de Psicólogos da Faculdade de Ciências, câmpus de Bauru, ela acredita que o tipo de educação sexual recebida é um fator fundamental no diálogo sobre a sexualidade do deficiente e do não-deficiente.
Nesse sentido, o principal objetivo da obra é mostrar como as pessoas com deficiência compartilham o desejo sexual e o potencial afetivo e erótico inerentes ao ser humano. A autora faz uma reflexão crítica sobre o assunto, possibilitando a familiares, educadores e profissionais da educação e da psicologia reavaliar pontos de vista sobre a sexualidade e a educação sexual de pessoas com deficiência.
Oscar D’Ambrosio
Reportagem Jornal Unesp
Agosto 2008


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